domingo, 10 de junho de 2012

"O Processo" de Kafka - uma interpretação anarquista



Eu não sou nenhum crítico literário, então existem boas possibilidades de acabar escrevendo alguma besteira, mas, de qualquer jeito, vou colocar aqui (uma das) minhas leituras do livro "O Processo" de Franz Kafka. Um livro rico como este abre a possibilidade para diversas interpretações, as quais reconheço, mas aqui eu vou escrever apenas uma (rápida) interpretação "anarquista" do livro, que provavelmente está longe de ser a interpretação mais interessante. Entretanto, considerando a biografia e as preferências políticas do autor, acredito que seja um ponto de vista válido. Se é que existem interpretações "válidas", pois o livro, assim como a lenda contada na catedral, tenta fugir de todas as interpretações possíveis.

É registrado que Kafka possuía alguma simpatia pelas doutrinas anarquistas que existiam no contexto europeu da época, especialmente representadas pela figura de Prince Kropotkin. O livro "O Processo" pode ser visto como uma crítica a qualquer tipo de autoridade, mas acredito que represente uma crítica especialmente a autoridade estatal. O próprio processo seria uma alegoria ao Estado, enquanto o tribunal é formado pela sociedade que legitima o poder do estado.

O processo pode ser interpretado como uma alegoria do Estado, porque ele é a justificativa para que alguém possa entrar no quarto de Josef K. (ou de qualquer indivíduo) cedo pela manhã, invadindo a privacidade e o detendo, mesmo que não exista nenhum motivo razoavelmente explicado ou previamente acordado. O Estado, assim como o processo, é uma fonte de autoridade que tem o poder de reger alguém mesmo que este sequer saiba qual a justificativa para tal - se é que esta existe. É interessante ver como se desenvolve a atitude de K. frente ao processo; o livro inteiro é a história de como ele aos poucos vai aceitando a autoridade do processo.

A crítica a burocracia é muito clara, representada pelo ar sufocante nos sótãos onde ficam os cartórios do tribunal, onde as pessoas que não estão acostumadas costumam passar mal (enquanto os burocratas não conseguem se adaptar ao ar fresco). Outra crítica menos notada é quando Titorelli diz que existem cartórios em quase todos os sótãos - o fato de estarem nos sótãos e não nos porões não é uma coincidência. Outras críticas estão presentes no livro inteiro - uma das minhas favoritas é o parágrafo gigante do início do sétimo capítulo.

O filme de Orson Welles sobre o livro é bem interessante (especialmente pela atuação do Anthony Perkins), mas uma falha foi a falta de uma ênfase na profissão do Bloch - algo que é bem enfatizado por Kafka. Bloch é um comerciante, e ele é uma alegoria do efeito do Estado frente à iniciativa privada. Bloch (um nome sugestivo para quem está familiarizado com a escola austríaca) dorme por dias no quarto de empregada (uma outra alegoria excelente) do seu advogado, e seu processo está rolando a cinco anos, sem sequer ter iniciado. Bloch implora de joelhos por alguma notícia sobre seu processo, mesmo tendo em segredo outros cinco advogados - um bom comerciante entende de competição.

Uma pergunta interessante é: o que havia atrás das portas guardadas onde o homem do campo passou sua vida inteira esperando? Provavelmente nada. Lá dentro estaria a prova da nudez do rei. Entretanto, considerando a grande proteção conferida ao lugar e o brilho que emana de dentro, o homem do campo projeta que exista de fato algo importante do lado de dentro. Josef K, assim como o homem do campo, ao se deparar com toda a aceitação de seu processo por parte de outros, como o seu tio, por exemplo, e com o fato de que praticamente todos fazem parte do tribunal, acaba aceitando toda a legitimidade que ele negava no início.

Enfim, o final trágico de Josef K. não se dá porque este tentou desafiar o tribunal e seu processo. O fim é consequência do aceitamento final de K. sobre a legitimidade do processo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Wikipedia; ou porque a ordem espontânea é superior ao ensino público gratuito de qualidade etc

Ordem espontânea - o tipo de ordem que emerge pela ação humana, mas não pelo desígnio humano - é um conceito abstrato e que nem sempre é fácil de ser visualizado. Felizmente, na era da internet, existem diversos exemplos de ordens espontâneas (ou emergentes) que brotam na web. Um bom exemplo são as redes sociais, como o Facebook. A blogosfera também é uma grande ordem espontânea. Todos os memes, que são bastante famosos ultimamente, são outros excelentes exemplos. Alguém poderia mesmo dizer que a internet por inteiro é uma grande ordem espontânea.

Acredito que o meu exemplo favorito de uma ordem espontânea muito bem sucedida é a Wikipedia. Se você quiser procurar uma palavra ou frase obscura, obter um rápido resumo sobre uma figura histórica, ou conhecer algo mais sobre um conceito político ou científico obscuro, graças a Wikipedia a ajuda está a apenas um clique do mouse. E tudo isso graças a uma horda de desconhecidos - através de diversas ações humanas propositadas, mas que tiveram um resultado final que não foi planejado por nenhuma mente ou grupo de mentes específico.

A própria história da Wikipédia é uma mostra de como a ordem espontânea pode ser superior a ordem planejada, mesmo que o planejamento seja feito por um grupo de pessoas altamente qualificadas. Segundo o artigo sobre a Wikipedia no próprio site, "A Wikipedia começou como um projeto complementar a Nupedia, um projeto de enciclopédia online gratuita de língua inglesa cujos artigos eram escritos por especialistas e revistos em um processo formal". Você já tinha ouvido falar da Nupedia? Eu também não. Nem sempre um grupo de especialistas e um processo formal são melhores do que um caos de contribuições anônimas.

É claro que, pelo seu processo de produção anárquico, é possível encontrar diversos erros em certos artigos da Wikipedia - assim como diversas empresas erram e quebram todos os dias. Isto não é o suficiente para, assim como algumas pessoas costumam fazer - rejeitar todo o trabalho feito pelo site. É claro que a Wikipedia não é nenhuma bibliografia altamente confiável a ponto de ser utilizada como referência em um artigo acadêmico, entretanto ela ainda é extremamente valiosa, mesmo para pesquisas acadêmicas, nem que seja como forma de fazer uma pequena introdução de um conceito desconhecido antes de uma pesquisa mais profunda, ou como fornecedora de palavras chave úteis para a pesquisa. Sem contar que - assim como o mercado - existem incentivos para que os erros sejam eliminados, dado que qualquer um ao detectar um erro pode corrigi-lo.

Um dos fundadores da Wikipedia, Jimmy Wales, estava ciente do poder de uma ordem espontânea como forma de coordenação de um conhecimento disperso. Wales, um libertário e admirador confesso do trabalho de Ayn Rand, afirmou que a sua inspiração veio do artigo do economista austríaco Friedrich Hayek: O uso do conhecimento na sociedade (artigo que pode ser lido em  http://www.ordemlivre.org/2008/09/o-uso-do-conhecimento-na-sociedade/ ).

A bandeira que vem sendo defendida hoje como forma de salvar a educação é a de "10% do PIB para a educação gratuita, de qualidade, universal, e diversos outras qualificações (já vi até "laica", como se já não fosse). A questão é que não é um aumento de gastos que é capaz de melhorar a educação. Não tenho medo em dizer que a Wikipedia fez muito mais pela educação brasileira do que um aumento desses gastos faria. O canal de evolução de um serviço é a inovação, e a Wikipedia é o melhor exemplo atual de uma grande inovação trazendo excelentes benefícios e melhorias para um serviço educacional. Por definição, não é possível planejar uma inovação - afinal se você sabia sobre ela previamente, logo não é inovação nenhuma. Uma evolução através do planejamento estatal não é o desejável (se é que é possível). O necessário é diminuir as barreiras (por exemplo, liberando o homeschooling), para que as próprias pessoas possam descobrir melhores maneiras de como se educarem.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Por que estudar economia?




"We do not  need to understand economics in order to experience the benefits of freedom of exchange and production. But we may very well need to understand economics in order to sustain and maintain the institutional framework that enables us to realize the benefits that flow from freedom of exchange and production" - Peter Boettke



"Afinal, se o mercado consegue resolver tudo sozinho, então porque você estuda economia?". Esta é uma crítica que já escutei mais de uma vez pelas minhas defesas do livre mercado. Tal crítica possui uma lógica: se não podemos melhorar os mercados através de planos econômicos centrais, se no fim das contas tudo o que tentarmos vai acabar por piorar a situação de livre mercado, então porque perder tempo com economia? Não seria melhor se somente ignorássemos tudo isto e vivêssemos felizes para sempre confiando no mercado?

Acredito que é possível simplificar os enfoques do estudo da economia em duas correntes: a liberal e a mercantilista. A crítica acima é uma excelente demonstração do segundo enfoque. Para quê serve a economia? O mercantilista responderia: para podermos melhorar a nossa situação através do conhecimento de maneiras de melhorar o funcionamento da própria economia. Assim, é possível agir de modo a melhorar o próprio sistema de mercado e as instituições econômicas, criando um mundo mais próspero e justo.

Enquanto liberal, eu discordo completamente desta visão. E acho engraçado o fato de pessoas que concordem com este tipo de abordagem por vezes não conseguirem sequer enxergar a possibilidade de uma alternativa. A motivação deste post é exatamente dar uma resposta liberal para a pergunta central: Afinal, por que estudar economia?

Na metade do século XIX, o economista liberal francês Frédéric Bastiat escreveu sobre a Paris de sua época, onde viviam centenas de milhares de pessoas, cada uma consumindo uma grande variedade de bens, que na maioria das vezes sequer eram produzidos dentro da cidade (como alimentos). Paris dependia (e ainda depende) de um vasto influxo diário de bens - porém não havia (e ainda não há) uma única agência que planejava a entrada de todos os bens necessários. Surpreendentemente, todos os dias, todos os bens necessários chegavam à cidade, em quantidades aproximadamente corretas.

Bastiat refletiu sobre o evento escrevendo o seguinte: "A imaginação se engana quando tenta apreciar a vasta multiplicidade de bens que devem entrar amanhã, a fim de preservar os habitantes de caírem em convulsão de fome, rebelião e pilhagem. (...) Contudo, todos dormem, e seus sonos não são perturbados um único minuto pela perspectiva de tal terrível catástrofe." Pense no que Bastiat escreveu, e o quanto isto era verdade e incrível na Paris de 1850, e como isto é ainda mais verdadeiro e impressionante nas cidades atuais, como São Paulo, por exemplo, onde a quantidade de habitantes e diversificação de bens é infinitamente maior do que na relativamente pequena Paris do século XIX.

A complexidade do sistema de distribuição é assustadora, conforme expôs Bastiat, mas pense também na complexidade do sistema de produção. Por exemplo, a simples, porém brilhante, constatação de Leonard Read em 1958 de que não existe uma única pessoa sequer no mundo capaz de criar um simples lápis. Para produzir um lápis, a primeira coisa necessária a se fazer é conseguir madeira. Para tal, é necessário cortar uma árvore. Para cortar uma árvore, é preciso um machado ou uma serra. Para fazer uma serra, é necessário aço, que por sua vez precisa de ferro, que precisa ser retirado de uma mina. Imagine quanto tempo seria necessário para que uma pessoa pudesse conseguir obter a madeira necessária para fabricar um simples lápis - sem contar todas os outros insumos necessários, como o grafite, a borracha que fica na ponta, o metal que une a borracha com o lápis, e outros insumos que eu sequer sei quais são. Mesmo assim, qualquer um pode ter um lápis pelo preço de algumas moedas, que às vezes sequer prestamos atenção no fundo do bolso. A brilhante retórica de Milton Friedman explicando tal complexidade pode ser vista no vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=jgK11FkBJ0U

O processo de produção de qualquer bem dura alguns meses, e em alguns casos, como por exemplo, para produzir um café, mais de anos. Entretanto, é possível tomar um café na esquina a qualquer momento por um preço irrisório. Alguém terá plantado uma muda de café alguns anos atrás para que você pudesse fazer isto.

O objeto de estudo do economista é este sistema capaz de coordenar de maneira tão complexa tantas ações humanas, que é o sistema de mercado. Enquanto um mercantilista enxerga a profissão de economista como um engenheiro social, o liberal enxerga o economista como um investigador, alguém que tenta compreender o mistério da coordenação e cooperação humana via mercado, que ocorre mesmo sem os participantes perceberem o que está acontecendo.

O fato de não podermos mudar certas leis econômicas como a lei da oferta e da demanda ou a lei da utilidade marginal decrescente não é contraditório com o estudo da disciplina, assim como o fato de um físico não poder mudar a lei da gravidade não é contraditório com o estudo da física. Um economista deve estudar o funcionamento do sistema de mercado para, ao contemplar sua inacreditável complexidade, admitir em um gesto de humildade socrática que ele só sabe que nada sabe, e que tentar planejar instituições sociais humanas é uma pretensão a qual nenhum homem pode ter a ousadia de possuir.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Um comentário sobre a greve dos professores

                


            Recentemente os professores das universidades federais iniciaram uma mobilização de greve, que incluiu hoje a minha própria faculdade. Já que agora eu estou sem aulas mesmo, tenho um pouco mais de tempo para escrever o que eu penso sobre isto aqui. Não pretendo ficar falando sobre a posição óbvia libertária sobre o assunto (toda greve voluntária é legítima, desde que não inclua piquetes, e não obrigue o patrão a pagar os dias não trabalhados, etc), nem sobre se eu acho que a greve é um bom instrumento para pressionar o governo (greve é muito século XIX, deviam inovar um pouco mais), mas sim sobre o porquê deste tipo de evento ocorrer.
            Não é nenhum exagero afirmar que praticamente toda greve ocorre ou em setores estatais ou em setores com alto nível de corporativismo. O motivo disto me parece um tanto óbvio; quando os salários deixam de ser definidos via um processo de mercado, todas as negociações tornam-se brigas políticas. E brigas políticas não se resolvem jamais de maneira pacífica – sem perdas e lucros, os critérios deixam de ser econômicos e passam a ser apenas quedas de braço de poder. E em processos políticos a única coisa que importa é o poder de um grupo de interesse, de modo que a única saída possível torna-se um enfrentamento de sindicatos com patrões/estado.
            Algo que acho muito curioso e que ilustra perfeitamente o meu argumento é o contínuo uso da palavra “luta” em todas as mobilizações sindicais. A palavra utilizada é precisa – todos os tipos de negociações quando deixam de ser feitas no mercado e passam para um âmbito político deixam de ser uma cooperação e passam a ser uma luta. Ganhos mútuos se transformam apenas em um jogo de soma zero. As greves, portanto, são meras conseqüências do sistema corporativista em que vivemos hoje.
            Os sindicatos são a reação dos professores ao poder do governo em determinar unilateralmente os salários. É claro que os sindicatos não são instituições libertárias antiestado, afinal geralmente estes possuem benefícios políticos que uma associação puramente voluntária não sonharia em possuir. Nem estou aqui defendendo os sindicatos. A questão é que estes possuem dentro da negação do processo de mercado feita pelo corporativismo os incentivos para atuar de maneira coercitiva como os seus patrões.
            A busca por um salário “justo” não é possível. Assim como alguns escolásticos espanhóis já haviam argumentado no século XV, e que a tradição liberal levou em frente, não existe um preço “justo”, e salários não são nada mais do que o preço do trabalho. Somente atos da ação humana propositada podem ser considerados justos ou não, e preços são frutos da ação humana não propositada, portanto não existe “justiça” nos preços.
            Com a impossibilidade de definir um salário objetivamente justo, as brigas entre patrões e empregados tornam-se intermináveis e não podem possuir um lado vencedor. O que deve ser defendido é a troca deste paradigma de conflitos pela definição dos salários pelo mercado livre. Controle de preços pelo governo sempre causam problemas (afinal não podemos possuir todas as informações necessárias para definir qual o preço “justo”) e o mesmo vale para salários.
            E com a existência de universidades controladas pelo poder coercitivo do estado, não pode existir um mercado verdadeiramente livre para professores. A bandeira a ser defendida não é a renovação do ciclo de conflito através da bandeira de “10% do PIB para a educação pública”. A bandeira que deve ser defendida é a de “0% do PIB para a educação pública”, e melhor ainda “0% de estado envolvido na educação”. As universidades públicas não precisam de mais investimentos do governo; elas precisam ser devolvidas aos seus donos, que são os professores e os funcionários que trabalham nela. 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O balão da política monetária

No ano passado tive a oportunidade de visitar New York, e uma das exposições que fui visitar foi a "Drachmas, Doubloons, and Dollars: The History of Money", da American Numismatic Society (afinal, quem não acha isso interessante?). Uma exposição fantástica que eu recomendo bastante (http://www.numismatics.org/Exhibits/DrachmasDoubloonsDollars), mas aqui o foco não é exatamente este. A questão é que a exposição fica dentro do Federal Reserve de NY, e, depois de conhecer diversas moedas históricas, entrei em uma sala que aparentemente servia para explicar o funcionamento do Fed para crianças de algumas escolas que deveriam visitar o museu.

Achei fantástica uma das instalações, que consistia em um jogo onde a criança representava o Fed, enquanto um balão representava toda a economia americana, com vários bonequinhos sorrindo dentro da cesta - que provavelmente representam os americanos, apesar de não ter certeza se eles realmente deveriam estar sorrindo. A proposta do jogo era a seguinte - o balão da economia estava em um ambiente instável, e ficava subindo e descendo autonomamente; o papel do jogador era controlar a altura do balão, usando a taxa de juros como instrumento. Ou seja, quando havia uma grande inflação e aquecimento da economia, o balão começava a subir e o jogador deveria rapidamente aumentar a taxa de juros - se o balão começasse a descer muito, isso representava uma deflação e uma desaceleração da economia que deveria ser combatida logo pela redução da taxa de juros.

É claro que essa é apenas uma alegoria para todos os complexos modelos de política monetária que o Fed e os bancos centrais usam, entretanto a idéia central é exatamente essa. Os planejadores acreditam realmente que a economia é um "balão instável" que deve ser sabiamente controlado graças a um suposto conhecimento privilegiado possuído por estes. O que achei fantástico e engraçado é que o próprio Federal Reserve é réu confesso da sua própria pretensão, e é exatamente esta posição de superioridade que é passada para as crianças que visitam o banco. Não é espantoso que hoje praticamente nenhum leigo consiga imaginar um mundo sem o governo tomando conta da moeda.

As questões relevantes que deveriam ser perguntadas (e tomara que algumas crianças que viram o joguinho tenham se perguntado sobre isso) são: Como saber exatamente se o balão está subindo ou descendo? E se a subida do balão for somente uma ilusão, como aquela quando pensamos que o nosso metrô está se movendo quando na verdade é o trem vizinho que se move? Como saber se a instabilidade do balão é realmente decorrente de ventos e instabilidade externa, ou se é só o homem controlando o fogo que não faz nenhuma idéia do que está fazendo? Pode alguém que está dentro da própria cesta do balão ter uma visão externa da trajetória deste superior aos outros?

Ou ainda a melhor pergunta a ser feita: Existe, de fato, algum balão?


sábado, 28 de abril de 2012

Igualdade racial por vias libertárias

"What I ask for the Negro is not benevolence, not pity, not sympathy, but simply justice. [Applause.] The American people have always been anxious to know what they shall do with us. (...) Everybody has asked the question, and they learned to ask it early of the abolitionists, "What shall we do with the Negro?" I have had but one answer from the beginning. Do nothing with us! Your doing with us has already played the mischief with us. Do nothing with us! If the apples will not remain on the tree of their own strength, if they are wormeaten at the core, if they are early ripe and disposed to fall, let them fall! I am not for tying or fastening them on the tree in any way, except by nature's plan, and if they will not stay there, let them fall. And if the Negro cannot stand on his own legs, let him fall also. All I ask is, give him a chance to stand on his own legs! Let him alone! If you see him on his way to school, let him alone, don't disturb him! If you see him going to the dinner table at a hotel, let him go! If you see him going to the ballot- box, let him alone, don't disturb him! [Applause.] If you see him going into a work-shop, just let him alone,--your interference is doing him a positive injury. (...) Let him fall if he cannot stand alone! If the Negro cannot live by the line of eternal justice, so beautifully pictured to you in the illustration used by Mr. Phillips, the fault will not be yours, it will be his who made the Negro, and established that line for his government. [Applause.] Let him live or die by that. If you will only untie his hands, and give him a chance, I think he will live. He will work as readily for himself as the white man. (...) the war has proved that there is a great deal of human nature in the Negro, and that "he will fight," as Mr. Quincy, our President, said, in earlier days than these, "when there is reasonable probability of his whipping anybody." [Laughter and applause.]"

Frederick Douglass, no seu discurso de 1865, "What the black man wants"

http://www.frederickdouglass.org/speeches/index.html


A discussão sobre a validade das cotas raciais nas universidades públicas voltou a ganhar força após a decisão do STF sobre a constitucionalidade de tais cotas. Não pretendo aqui discutir se esta decisão foi acertada ou não, mesmo porque não tenho competência jurídica suficiente para interpretar o que a constituição diz ou não diz. O que pretendo é discutir se este tipo de política deveria existir em primeiro lugar.

A primeira coisa que preciso enfatizar é que não discordo das intenções das cotas raciais. Não nego de modo algum que existe racismo no Brasil, e que isso tem um forte papel na falta de oportunidades para negros e que por sua vez isso constitui um forte motivo pelo qual a proporção de negros em universidades é menor do que a proporção de negros na população, enquanto a proporção de negros presos e/ou pobres é maior do que a proporção populacional. Entretanto as intenções não são suficientes para julgar uma política, na verdade elas são pouco relevantes. O que importa é o efeito.

As cotas raciais (e tudo o que for dito aqui pode ser estendido às cotas sociais também) nada mais são do que parte da cruel rotina do Estado de quebrar as pernas das pessoas para oferecerem a muleta depois. O principal efeito desta política é criar um elo de dependência dos negros com o Estado, tal qual o elo estabelecido previamente entre senhores e escravos. É interessante lembrar que um dos argumentos esdrúxulos contra a abolição da escravidão era de que os senhores tinham um papel imprescindível em "educar e civilizar" os escravos. As cotas raciais são a versão moderna deste argumento, trocando apenas um senhor por outro.

Outra coisa importante de ser ressaltada é que as cotas raciais NÃO são uma política que beneficia uma classe de negros que precisa de ajuda. As cotas beneficiam apenas alguns indivíduos desta classe, e que estão longe de serem os que mais precisam de algum apoio. Se seguirmos uma teoria Rawlsiana da justiça de existência de deveres em ajudar os "less fortunate" (não sei qual seria uma tradução boa deste termo) de uma sociedade, estamos claramente errando o alvo. Aqueles que são realmente mais excluídos, e têm pouquíssimas chances de prosperarem, não chegam a completar o ensino médio para poderem ingressar na faculdade. O custo de oportunidade de estudar tanto tempo para essas pessoas é alto demais. Os benefícios gerados pelas cotas são direcionados para a elite de uma classe desprivilegiada, o que não resolve um problema de desigualdade (muito pelo contrário).

Se quisermos realmente promover um ambiente de isonomia racial, temos que mirar toda a classe e não apenas uma minúscula parte dela. O que é preciso fazer não é entregar algumas muletas para uma dúzia e ficar com a consciência limpa; o que é necessário é parar de quebrar as pernas de todas as pessoas.

A tomada estatista contemporânea dos movimentos sociais que buscam defender minorias desprivilegiadas afastou os libertários deste tipo de causa. Não podemos, entretanto, esquecer que o nascimento do nosso movimento político sempre foi uma luta contra privilégios e a favor da igualdade - sempre entendida como isonomia, é claro - também. E acredito que a melhor solução para a desigualdade racial no Brasil seja a solução libertária, e por isso não podemos esquecer que existe este tipo de desigualdade. Dizer que não existe nenhum tipo de diferença de tratamento entre negros e brancos seria implicitamente dizer que os negros são inferiores - afinal seria a única explicação que sobraria para explicar as diferenças de proporção que mencionei no início do texto.

Então, afinal, como parar de quebrar as pernas dos negros? Como desamarrar as mãos deles e dar uma chance que eles caminhem com suas próprias pernas, como Frederick Douglass pediu no século XIX? Acredito que a principal frente a ser defendida é o fim da guerra contra as drogas; uma guerra que é claramente direcionada aos mais pobres, e, na maioria das vezes aos negros. Existe uma repressão maior a não-usuários de drogas que moram em favelas do que usuários que moram na zona sul, e isso não é mero acaso. Imagine quantas vidas são destruídas pelas prisões de jovens que trabalham como vapor, somente por participarem de uma troca voluntária que não agride ninguém? Imagine as oportunidades de crescimento se a polícia apenas os deixassem sozinhos, como pediu Douglass?

Outras políticas que seriam muito mais eficientes em diminuir a desigualdade racial do que as cotas seriam (a) acabar com a universidade pública "gratuita" (ênfase nas aspas) e (b) acabar com a exigência do diploma.

O ensino superior "gratuito" não existe - não existem almoços grátis afinal. Quem paga pela educação superior (que é muito cara por sinal) são exatamente aquelas pessoas que não vão estudar na universidade. Sim, se você está estudando em uma universidade pública quem está pagando para você fazer isso é aquele garoto que largou a escola na quarta série para trabalhar e ajudar os pais. Eu estudo em uma universidade pública e tenho bastante vergonha de admitir isso, mas é verdade. E forçar a entrada de alguns negros na universidade pública não resolve este problema. Conforme já argumentei, aqueles que mais precisam de ajuda não terminam o ensino médio, e definitivamente o que eles não precisam é pagar pelos estudos de pessoas que eles sequer conhecem, somente por compartilharem a cor da pele.

Acabar com a exigência do diploma é outro fator que ajudaria muito aquelas pessoas que não dispõem de condições de passar entre quatro e seis anos dedicadas a estudos somente para poderem trabalhar em algum emprego melhor assalariado. Muitas vezes o que acontece atualmente é que pessoas mais pobres são obrigadas a pagar uma universidade particular de quinta categoria, perder tempo assistindo aulas onde não aprendem nada relevante, somente para terem um diploma que lhes permite trabalhar em um ofício que poderia ser exercido mesmo sem todo o tempo gasto na universidade. A exigência de diploma é uma reserva de mercado elitista, que prejudica a tal isonomia desejada pelas cotas.

Existem outras diversas coisas a serem feitas, como acabar com a burocracia que empreendedores precisam enfrentar, o que permitiria que pequenos empreendedores informais em comunidades pobres pudessem ter certos direitos que infelizmente o Estado só permite que os que ele considera "legais" possam ter. Acabar com as interferências na relação empregador-empregado, pelo mesmo motivo acima. Garantir a propriedade das pessoas mais pobres, também reduzindo as exigências de escritura, alvará, e todas estas burocracias inúteis que também afetam muito mais as pessoas mais pobres. E, claro, reduzir impostos - afinal estes sempre recaem na parcela mais pobre da sociedade.

Conforme Frederick Douglass disse, se existir justiça, tudo o que precisamos fazer é deixar os negros sozinhos, porque eles são capazes de tomar conta de si mesmos. Infelizmente a justiça a qual Douglass se referia - igualdade perante a lei - não existe no Brasil, haja visto toda a diversidade de privilégios, proibições, e limitações a liberdade existentes na lei brasileira. Instituir novos privilégios, como as cotas (sejam raciais ou sociais), não ajudam de modo algum em garantir a igualdade perante a lei. Não precisamos de novos privilégios. Precisamos acabar com os existentes.



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Aldous Huxley e conhecimento tácito

Nota: Conforme eu disse no primeiro post desse blog, as pessoas reagem a incentivos e até agora os meus incentivos não foram muito propícios para escrever aqui. Mas, enfim, vou tentar outra vez.

Um conceito o qual sempre achei um pouco difícil de assimilar é a idéia de conhecimento tácito, especialmente como descrito por Michael Polanyi. A idéia do autor é que podemos saber mais do que podemos dizer - ou seja, existem certos tipos de conhecimentos que possuímos que sequer compreendemos o suficiente para explicá-los. Em Hayek, isso pode ser expresso como os conhecimentos particulares de tempo e lugar, que são informações subjetivas que são exclusivamente individuais, exatamente porque não podemos passar este tipo de conhecimento para outras pessoas tão facilmente.

Hayek vai ainda mais além ao falar sobre a pretensão do conhecimento, que poderia ampliar o conceito do Polanyi de "podemos saber mais do que podemos dizer"  para "acreditamos saber mais do que aquilo que realmente sabemos, que ainda é mais do que aquilo que nós podemos dizer que sabemos", o que deixa as coisas ainda mais confusas.

Porque estou escrevendo isso? O último livro que li foi o A Ilha (Island), do Aldous Huxley, por indicação de um amigo. Em certa parte da história (que é muito boa e vale a pena ler, especialmente pra quem já leu Admirável Mundo Novo, porque existem várias referências que só quem leu AMN vai entender), o protagonista está visitando o sistema educacional da Ilha de Pala, e quando ele entra em uma sala de aula de Filosofia Elementar Aplicada para a 5ª série (só em Pala mesmo), o professor está ensinando algo muito parecido com o conceito de conhecimento tácito, de uma maneira razoavelmente esclarecedora, apesar de um pouco modificada. Segue abaixo o trecho (ênfases minhas):

"- Os símbolos são públicos - estava dizendo um homem ainda jovem próximo ao quadro-negro, no momento em que Will e Mrs. Narayan entravam na sala. Desenhou uma série de pequenos círculos e os números: 1, 2, 3, 4 e n. "Estes números representam o povo", explicou. Depois, partindo de cada um dos pequenos círculos, desenhou uma linha que os ligava a um quadrado existente à esquerda do quadro-negro. Escreveu um "S" no centro do quadrado. "S é o sistema de símbolos que o povo usa quando quer conversar entre si. Todos falam a mesma língua: inglês, palanês, esquimó, dependendo do local onde vivem. As palavras são públicas. Pertencem a todos os que falam uma determinada língua. Estão catalogadas nos dicionários. Observemos agora o que está acontecendo lá fora". Dizendo isso, apontou para uma janela aberta (...) O professor desenhou um segundo quadrado do lado oposto do quadro, marcou-o com a letra "A" (para designar acontecimento) e ligou-o aos círculos por meio de linhas. "O que acontece lá fora é público" - disse ele. "Quando alguém fala ou escreve, isso também é público. Mas as coisas que ocorrem no interior destes pequenos círculos são individuais. Individuais".

Pondo a mão sobre o peito, repetiu: "Individual" - friccionou a testa e disse: - Individual. - Tocou as pálpebras e a ponta do nariz com o indicador - Agora vamos fazer uma experiência simples: Digam a palavra "beliscar". (...) Isso é uma palavra pública. Todos podem procurá-la no dicionário. Mas agora eu quero que vocês se belisquem. (...) Pode alguém sentir aquilo que o seu vizinho está sentindo?

(...)- Parece que houve vinte e três dores diferentes e independentes. Vinte e três somente nesta sala. Quase três milhares de milhões em todo o mundo, sem acrescentarmos as dores de todos os animais. Cada uma delas é estritamente individual. Não há nenhum modo de transferir a experiência de um centro da dor para outro. Nenhuma comunicação a não ser indiretamente através do "S"(...) Prestem atenção a isso: exige somente uma palavra pública, "dor", para designar os três milhares de milhões de experiêcias individuais, embora cada uma delas possa diferir tanto da outra quanto o meu nariz difere do de vocês (...). Uma única palavra define coisas e acontecimentos que pela sua natureza se assemelham entre si. E, sendo pública, é impossível que abranja todas as múltiplas variantes de um mesmo acontecimento."

Depois o professor conclui contando uma longa história budista sobre Mahakasyapa e o sermão da flor do Buda, uma história também iluminadora mas que não é necessário ser transcrita. É uma excelente passagem a ser citada para facilitar a explicação desse conceito - que também tem a sua parcela tácita que só pode ser compreendida individualmente, sendo impossível comunicar tudo o que forma a idéia.